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O varejo caiu pelo 15º mês seguido e a verba de publicidade subiu dois dígitos. Alguém vai ter que explicar isso

Tempo de leitura: 17 minutos

Resumo executivo: o varejo brasileiro acumulou em agosto o 15º mês consecutivo de queda real, enquanto o investimento publicitário global caminha para 1,3 trilhão de dólares em 2026, com alta de 11%. No mesmo intervalo, a Publicis consolidou o hábito de vencer contas bilionárias sem concorrência, a Amazon começou a vender anúncio dentro do ChatGPT, a OpenAI testou um formato que retém o clique dentro dela mesma e a Trade Desk foi retirada do S&P 500. Esta análise organiza as notícias do momento em torno da pergunta que elas colocam na mesa do CMO: se o dinheiro continua entrando e o consumidor continua encolhendo, a diferença vai ser cobrada em prova de retorno.

A conta que não fecha

Comece pelos dois números que precisam conviver no mesmo plano.

O Índice Cielo do Varejo Ampliado de agosto, divulgado em 11 de setembro, mostrou o varejo brasileiro em queda de 2% em termos reais na comparação anual. É o 15º mês consecutivo de retração. A última alta real foi em maio de 2025. As lojas físicas subiram apenas 1,2% em termos nominais, o que na prática significa recuo, enquanto o comércio eletrônico cresceu 5,1%. Bens duráveis e semiduráveis foram o pior macrossetor, com queda real de 4,6%. Por região, o Sudeste caiu 2,9% e o Centro Oeste 3,7%. São Paulo recuou 3,5%.

Agora o outro lado. A consultoria Madison & Wall projetou, em levantamento noticiado em 11 de setembro, que a receita publicitária global fecha 2026 em 1,3 trilhão de dólares, com crescimento de 11% no ano e 12,9% no segundo trimestre. O IAB elevou a projeção de crescimento do mercado americano em 2026 de 9,5% para 12,3%. No Brasil, o investimento publicitário somou 13,815 bilhões de reais no primeiro semestre, segundo dados apresentados na abertura do Adtech & Branding 2026, do IAB Brasil.

Essas duas realidades não se anulam. Elas descrevem uma tesoura. A verba de mídia está crescendo em um mercado consumidor que encolhe, e isso tem uma consequência previsível: toda a pressão migra para prova de eficiência. Quando o bolo do consumo não cresce, cada real de mídia passa a ser julgado por participação disputada, não por demanda criada.

Existe um agravante no relatório da Madison & Wall que merece atenção. O primeiro dos seus destaques diz, em resumo, que a IA está causando o boom e pode causar o estouro. O mecanismo é circular: empresas de inteligência artificial financiadas por capital de risco constroem ferramentas de compra mais eficientes e, ao mesmo tempo, se tornam grandes anunciantes. Parte do crescimento do mercado publicitário está sendo comprada com dinheiro de investidor, não com receita de cliente final. Quem planeja 2027 com base na curva de 2026 precisa saber disso.

O pitch competitivo está morrendo no topo do mercado

A notícia estrutural da semana não é sobre criação, é sobre como as contas são decididas.

O Digiday documentou em 14 de setembro que a Publicis venceu quatro grandes contas nos últimos doze meses sem concorrência: PepsiCo, LVMH, Microsoft e Paramount. O CEO Arthur Sadoun declarou em teleconferência de resultados que, em alguns casos, a companhia simplesmente não está mais participando de concorrência e vencendo assim mesmo. A verba global de mídia da PepsiCo em 2025 foi de 1,7 bilhão de dólares. A conta da Microsoft envolve 700 milhões de dólares em planejamento e compra global. A Omnicom perdeu um cliente de mais de 25 anos.

Em paralelo, a WPP caminha para reter o contrato global de mídia, dados e tecnologia da Coca-Cola, que opera há cerca de cinco anos para aproximadamente 200 marcas, e anunciou em 11 de setembro que não disputará a revisão da conta de mídia da América do Norte, avaliada em cerca de 805 milhões de dólares.

Leia os dois movimentos juntos e o padrão aparece: escala vence quando entrega infraestrutura de dados e tecnologia, e perde quando entrega apenas compra de mídia. A WPP abriu mão do pedaço substituível para segurar o pedaço estrutural.

O contraponto desconfortável veio no mesmo 11 de setembro. Um documento interno da WPP Production orientava funcionários a convencer clientes a internalizar a produção e, quando o cliente exigisse três orçamentos concorrentes, a fornecer os três de dentro do próprio grupo. A WPP rejeitou a acusação de enganar clientes e alegou citação seletiva. Produtoras independentes reagiram publicamente, e entidades do setor foram acionadas.

O que isso obriga o CMO a fazer: duas coisas concretas. A primeira é auditar a cláusula de concorrência de produção nos contratos vigentes, porque um benchmark de preço preenchido por três empresas do mesmo grupo não é benchmark. A segunda é decidir conscientemente se vale abrir uma concorrência de mídia. O processo tradicional leva cerca de 18 meses, contra dois a três meses de uma revisão acelerada. O custo de oportunidade de um ano e meio de atenção do time virou argumento defensável para não fazer pitch.

A IA deixou de ser ferramenta e virou inventário

Três notícias da janela, lidas em sequência, mostram a mesma coisa acontecendo em camadas diferentes.

A Amazon começou a vender inventário publicitário do ChatGPT como serviço gerenciado dentro do seu DSP, com compra por CPC ou CPM e anúncios em texto e imagem abaixo das respostas, marcados como patrocinados. A operação publicitária da Amazon beirou 70 bilhões de dólares no último ano. O negócio de anúncios do ChatGPT chegou a 1 bilhão de dólares em receita anualizada, com dezenas de milhares de anunciantes. O piloto é americano.

Em 14 de setembro, o Digiday noticiou que a OpenAI testa um formato nativo em que o anúncio traz um botão de conversa e abre um diálogo com um agente da marca dentro do próprio ChatGPT, em vez de mandar o usuário ao site do anunciante. A Wayfair está no piloto. Não há métrica pública de desempenho.

E a Madison & Wall projeta que o gasto em plataformas automatizadas de campanha, como Performance Max do Google e Advantage+ da Meta, sobe de 60 bilhões para 158 bilhões de dólares até 2030, o equivalente a cerca de 27% do mercado americano.

Some as três. Uma parte crescente do orçamento vai ser alocada por sistemas que o time não controla no nível de canal. E, quando o clique deixa de levar ao site da marca, o dado de intenção passa a nascer dentro da plataforma, não dentro da empresa.

Há um quarto dado que fecha o raciocínio. Na pesquisa do IAB com mais de 200 decisores, 76% dizem estar focados em otimizar para respostas geradas por IA, enquanto o uso de IA generativa em campanhas caiu de 78% em janeiro para 69%. O esforço está migrando de produzir com IA para ser encontrado pela IA. Essa é uma realocação de orçamento de conteúdo acontecendo dentro do mesmo ano fiscal.

A lição do antitruste é contratual, não regulatória

Com a decisão de remédios no caso de adtech do Google impondo restrições de comportamento em vez de venda de ativos, a frente regulatória se desloca para a publicidade movida a IA. Em paralelo, a FTC processou a Amazon alegando cobrança acima do devido por meio de um mecanismo de preço de reserva oculto em leilões, ao longo de um período de sete anos. A Amazon contesta.

O precedente que importa é europeu e antigo: em 2021, a autoridade francesa de concorrência multou o Google em 220 milhões de euros por autopreferência. Cinco anos depois, a estrutura de mercado permanece essencialmente a mesma.

A conclusão prática é pouco romântica. Remédios comportamentais não devolveram transparência de leilão em nenhum caso recente. Planeje com a hipótese de que a opacidade das plataformas automatizadas vai continuar e exija acesso a dados de nível de log por contrato, no momento da negociação, porque a regulação não vai entregar isso no seu prazo.

O mapa de canais mudou de lugar em quatro dias

No Brasil, o dado mais citável do período é o empate técnico: internet com 40,7% de participação no investimento publicitário do primeiro semestre, contra 40,6% da TV. Depois de uma década de narrativa de substituição, os dois canais chegaram ao mesmo patamar.

Nos Estados Unidos, o IAB projeta social crescendo 16,5%, CTV 15,6%, commerce media 13,6%, busca paga 8,1% e TV linear caindo 1,5%.

E a Trade Desk, principal DSP independente do mercado, foi retirada do S&P 500 e realocada no índice de menor capitalização a partir de 21 de setembro. A companhia valia cerca de 70 bilhões de dólares no pico, em dezembro de 2024, e hoje vale menos de 10 bilhões. Cortou 15% do quadro. A leitura de mercado não é que ela perdeu para outro DSP, é que a demanda que passava pela web aberta está sendo capturada pelas grandes plataformas.

Ao mesmo tempo, ambientes físicos continuam se formalizando como mídia mensurável. A PatientPoint realizou seu upfront posicionando 145 mil telas digitais em 32 mil consultórios médicos como canal de alta intenção, aberto a anunciantes fora da indústria farmacêutica. O gasto de marketing em ponto de atendimento médico passou de 1,2 bilhão de dólares no último ano.

A mensuração vai mudar, e 86% do mercado já sabe

Na mesma pesquisa do IAB, 86% dos entrevistados afirmam estar mudando a abordagem de mensuração e 45% relatam dificuldade de comparar jornadas mediadas por IA com as tradicionais.

Os movimentos correspondentes apareceram na janela. O Google expandiu o Meridian, sua ferramenta de modelagem de mix de marketing, com interface conversacional para auditoria de qualidade de dados, saída do beta do recurso de geoteste e incorporação de sinais de topo de funil, como volume de busca de marca. O X firmou parceria com a Samba para vender mensuração de desfecho a anunciantes de entretenimento, com capacidade de rastrear se a campanha levou à compra de ingresso ou ao consumo de uma série, e registrou 55% de lift em seis iniciativas medidas.

A direção é clara: modelagem de mix voltando ao centro, geoteste saindo do laboratório e prova de desfecho de negócio virando requisito de entrada, não diferencial.

O gargalo não é verba nem talento. É o fluxo de aprovação

Esta é a notícia mais acionável do período e passou quase despercebida.

A Molson Coors reestruturou desde março o processo de marketing com creators e relata quadruplicação do engajamento. As três mudanças foram: substituir o fluxo único de aprovação jurídica por um sistema de três faixas de risco, parar de tratar conteúdo orgânico em redes sociais como campanha de alto risco, e medir por insight de audiência em vez de acabamento da peça. A empresa tem 230 profissionais de marketing e mais de 100 marcas.

Nenhuma dessas três decisões exige verba nova. Todas exigem uma conversa com o jurídico.

Do lado da prova, a Old Navy divulgou em 11 de setembro os resultados da campanha de volta às aulas ancorada em um único creator: alta de 22% no tráfego para o sortimento infantil online, mais de 100 milhões de visualizações e 1,4 bilhão de impressões no YouTube. A ressalva honesta é que as vendas comparáveis da rede seguiram caindo 4% no trimestre. O número prova mobilização de tráfego de categoria, não recuperação de venda.

E um estudo brasileiro divulgado em 14 de setembro acrescenta um ajuste de calendário que vale dinheiro. A BR Media analisou 1.720 conteúdos orgânicos de criadores em festivais entre 2024 e 2026 e concluiu que o pico de engajamento e de compartilhamento acontece depois do evento, não durante: 6,32% de taxa média de engajamento e índice de compartilhamento quatro vezes superior ao registrado durante o festival. Com o Rock in Rio encerrando em 13 de setembro, isso significa que a maioria das marcas cortou o investimento de ativação exatamente na véspera da janela de maior retorno.

O organograma está dizendo algo

Três anúncios da janela, lidos juntos, descrevem para onde o cargo está indo.

O Target contratou Mark Weinstein, que passou 16 anos na Hilton, como chief marketing and guest experience officer, reportando diretamente ao CEO. Ou seja, marketing e experiência do cliente sob um único executivo, com alguém formado em programa de fidelidade, vindo de fora do varejo.

No Brasil, a Allianz Seguros nomeou Ana Quintela superintendente de Marketing, subordinada à diretoria executiva de Transformação, Estratégia e Marketing. E a Royal Canin promoveu Luiza Pedro, que entrou na companhia como gerente de Marketing em 2012, a diretora de Vendas e Trade Marketing.

Marketing reportando a transformação, marketing acumulando experiência do cliente, marketing acumulando comando comercial. O denominador comum é que o cargo está sendo ampliado para incluir aquilo que produz receita rastreável. Isso é oportunidade e é risco, porque mandato maior significa cobrança maior.

Tabela: a notícia, o número e a decisão que ela força

Notícia

Data

Número que importa

Decisão que ela força

Varejo brasileiro em queda

11/09

15º mês seguido, 2% real

Rever meta de sell out físico no 4º tri

Mercado publicitário global

11/09

1,3 tri de dólares, alta de 11%

Antecipar cobrança por prova de retorno

Publicis vence sem concorrência

14/09

4 contas em 12 meses

Decidir se vale abrir pitch de 18 meses

Orientação de produção da WPP

11/09

3 orçamentos do mesmo grupo

Auditar cláusula de concorrência

Amazon vende anúncio no ChatGPT

11/09

1 bi de dólares anualizados

Preparar dado de produto para IA

OpenAI testa clique que não sai

14/09

Sem métrica pública

Definir dono do agente da marca

Plataformas automatizadas

11/09

27% da verba dos EUA até 2030

Migrar competência de canal para sinal

Trade Desk fora do S&P 500

11/09

De 70 bi para menos de 10 bi

Reavaliar risco de fornecedor programático

Internet e TV no Brasil

11/09

40,7% contra 40,6%

Parar de planejar por substituição

Mudança de mensuração

11/09

86% já estão mudando

Recolocar MMM e geoteste no plano

Molson Coors e creators

11/09

Engajamento 4x

Partir aprovação jurídica em faixas

Engajamento pós festival

14/09

Compartilhamento 4x maior depois

Estender verba de ativação além do evento

Checklist: oito perguntas para a reunião desta semana

  1. Se o varejo cair mais 5% até dezembro, qual linha do seu plano se mexe primeiro?
  2. Quanto do seu orçamento já é alocado por plataforma automatizada, sem decisão humana de canal?
  3. Você tem acesso a dados de nível de log nos contratos vigentes ou apenas relatório agregado?
  4. Sua informação de produto está estruturada para ser lida e citada por um assistente de IA?
  5. Quem, com nome, seria o dono de um agente de marca dentro de uma plataforma conversacional?
  6. Quantas faixas de risco existem no seu fluxo de aprovação jurídica de conteúdo social?
  7. Qual foi a última vez que você mediu resultado com geoteste ou modelagem de mix?
  8. A verba de ativação dos seus patrocínios termina no último dia do evento?

Perguntas frequentes

Quais foram as principais notícias de marketing entre 11 e 14 de setembro de 2026?

As de maior consequência foram a projeção da Madison & Wall de 1,3 trilhão de dólares para o mercado publicitário global em 2026, a venda de inventário do ChatGPT pela Amazon, o teste da OpenAI de um formato que mantém o usuário dentro do chat, a retirada da Trade Desk do S&P 500, a consolidação da Publicis vencendo contas sem concorrência e, no Brasil, o 15º mês consecutivo de queda do varejo e o empate técnico entre internet e TV no share de investimento.

Por que o mercado publicitário cresce enquanto o varejo cai?

Porque são curvas diferentes. O consumo encolhe, mas a disputa por participação aumenta, e parte relevante do crescimento publicitário global vem de empresas de tecnologia e de IA financiadas por capital de risco, que são grandes anunciantes. O efeito prático é maior pressão por prova de eficiência sobre cada real investido.

O que significa a Amazon vender anúncios dentro do ChatGPT?

Significa que a interface conversacional virou inventário de mídia com compra programática. O piloto é americano, mas define o padrão. Para marcas brasileiras, a preparação começa antes da compra: a informação de produto precisa estar estruturada para ser lida e citada por sistemas de IA.

A concorrência de agências acabou?

Não, mas deixou de ser o mecanismo padrão no topo do mercado. A Publicis venceu quatro grandes contas em doze meses sem pitch. O argumento é de custo: um processo tradicional consome cerca de 18 meses, contra dois a três meses de uma revisão acelerada baseada em relacionamento e capacidade comprovada.

Qual mudança dá para implementar mais rápido?

A da Molson Coors. Trocar um fluxo único de aprovação jurídica por três faixas de risco e parar de tratar conteúdo orgânico como campanha de alto risco não exige verba nova e cabe em um trimestre.

Internet ultrapassou a TV no Brasil?

Ainda não. No primeiro semestre de 2026 os dois ficaram tecnicamente empatados, com 40,7% para internet e 40,6% para TV no share de investimento publicitário. A leitura correta é de convivência, não de substituição.

O que observar nos próximos dias

Três fios ficam abertos. O primeiro é o desfecho da conta de mídia da Coca Cola na América do Norte, agora disputada por Omnicom e Dentsu, que vai confirmar ou não a tese de que o valor migrou de compra de mídia para infraestrutura de dados. O segundo é se a OpenAI divulga qualquer métrica do formato conversacional, porque sem número não há plano de mídia. E o terceiro é o Dia do Cliente, em 15 de setembro, primeiro teste real de conversão de um varejo que acumula quinze meses de queda.

Fontes: Índice Cielo do Varejo Ampliado (E-Commerce Brasil); Madison & Wall via Adweek e AdExchanger; IAB e IAB Brasil; Digiday; Marketing Dive; Adweek; Campaign; Marketing Brew; AdExchanger; Propmark; Adnews; Grandes Nomes da Propaganda; Acontecendo Aqui; Promoview. Levantamento referente a publicações entre 11 e 14 de setembro de 2026.

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